Wednesday, April 19, 2006

Páscoa Turbulenta

10.04 a 17.04.2006

Na sexta-feira que antecedeu a Páscoa, a Elena veio aqui em casa. Ainda não contei muito sobre ela aqui neste blog porque se trata de uma história psicomulheril e, como tal, deve ser tratada com familiares e em conversas pessoais com amigos mais próximos à situação. Em linhas gerais, eu e Elena estávamos nos conhecendo melhor, mas isso já durava cerca de 6 meses, de modo que vivíamos a situação definida pelo grande filófoso Falcão como "não casa nem desocupa o noivo", e nem o fato de eu ter usado a tática do congelador serviu para resolver esta situação. Pois bem, na sexta-feira dia 14 de abril, ela veio aqui em casa, fez um belo risoto para nós, conversamos bastante e, vendo que nada iria mudar, acabei por dizer à Elena que aquela noite seria a última vez que nos veríamos, pois do jeito que estava, não poderia continuar. Entre lágrimas e abraços de ambos ela foi embora, querendo-não-querendo, ainda um pouco chocada com minha quase inesperada decisão. Não sabemos o que o futuro nos reserva, pois não nos queremos mal um ao outro, mas o presente estava se tornando insuportável, sendo essa a melhor solução para o momento. Isso foi só para começar a agitar minha Páscoa!
Sábado pela manhã fui trabalhar no IKEA e, logo após, dirigi-me à Stazione Centrale encontrar-me com Rubinho, Jampa, Macaquinho e Marlon para irmos à Genova visitar as Primas, amigas que fizemos das outras vezes em que estivemos por lá.
Para começar, não queríamos esperar tanto pelo trem cuja passagem era mais barata e, mesmo tendo comprado referida passagem, pegamos o trem anterior, cujo bilhete era mais caro, a velocidade mais alta e o número de paradas menor. Procuramos qualquer lugar vazio em uma das cabines e logo encontramos uma com apenas uma moça, aparentemente tailandesa. No que perguntamos se os lugares estavam ocupados, ela saiu correndo com sua mala, como faz aqueles que pegam o trem errado e sentam em qualquer lugar, mesmo sem reserva. Malandrinha! Desta forma, a cabine era toda nossa e pudemos tocar nossa viola e fazer nossa bagunça tranquilos, embora sempre com o receio de que as pessoas que haviam reservado aqueles lugares chegassem. Pouco tempo depois, chega um senhor mal-humorado requerendo seu lugar reservado com antecedência. Nisso o Marlon se levanta e se senta esmagado entre o Jampa e eu, e recomeçamos a tocar violão e a cantar, para alegria de todo o vagão! Em menos de um minuto o velho senhor nos perguntou, em tom absolutamente irônico, em que estação iríamos descer. Em outras palavras, não estava gostando nem um pouco do espetáculo e gostaria que parássemos de cantar, mas por ter usado uma maneira não educada de pedir, de dialogar, argumentar, respondemos secamente "Stazione Genova Piazza Principe" e continuamos a tocar ininterruptamente. Em verdade essa estratégia visava não só fazê-lo repensar seu modo de tratar as pessoas, mas introduzir a música, alimento da alma, em seu pobre coração. Tenho certeza de que quando deixamos aquele trem, ele sentiu nossa falta.
Eu disse que tocamos ininterruptamente? Menti. Tivemos que parar a música quando o fiscal da Trenitália apareceu pedindo nossos bilhetes. A multa por ter pegado este trem no lugar do outro que deveríamos ter esperado é de 14 euros por pessoa. Ficamos discutindo por alguns minutos com o fiscal, fingíamos que não falávamos bem o italiano e inventamos uma série de histórias mágicas. Durante a discussão o velho senhor se meteu dizendo que nós sabíamos falar italiano muito bem e que éramos conhecedores de toda a situação que envolvia os bilhetes e os trens e que, se fosse ele o fiscal, multaria no valor mais alto. Neste momento me virei para ele e, deixando um pouco de lado a educação que meus pais me deram, mandei ele calar a boca porque o assunto era entre nós e o fiscal e disse que felizmente ele não era o fiscale, portanto, não tinha que dar palpites. Bom, no final o fiscal cobrou somente o valor referente à reserva dos lugares, correspondente a 3 euros por pessoa, e tudo ficou resolvido. Logo após veio até nossa cabine um barbudão meio hyppie com um cão enorme perguntando porque havíamos parado de tocar, insistindo para que tocássemos um blues. Arrisquei a "Good Day For a Blues" do Storyville, urlando como um animal e com o barbudão batucando no vidro da cabine a ponto de quase quebrá-la, o que deixou o velho senhor num estado de nervoso incontrolável. Excelente! Por fim, o barbudão foi ao banheiro e deixou seu cão conosco, no que o chamei (ao cão) para entrar na cabine, uma vez que me parecia que o velho senhor não gostava de cães. Como sei que o contato com animais faz bem ao coração, fiz o cachorrinho sentar nos pés do velho senhor. O bicho era bonitino, mas fedia demais. A este ponto, o velho senhor já se fingia de morto para ver se parávamos de cantar e de chamar seres estranhos para nossa cabine. Mas não adiantou...
Esqueci de comentar que uma outra mulher requereu seu lugar reservado em nossa cabine e que ela não se aguentava de rir a cada reclamação do velho senhor. Bárbaro! Deixamos o trem desejando Feliz Páscoa ao senhor e à mulher remanescentes na cabine, que certamente se tornou mais triste após nossa partida.
Chegando na casa das Primas batemos papo, escutamos música, tocamos um pouco de violão, comemos uma bela picanha e,claro, bebemos. A Flora (irmã do Rubinho) chegou com o Lugas (Nego do Capeta) um pouco mais tarde e o Netão desistiu na última hora, como de costume, para estar com sua noiva, conhecida como Zaca, visto sua semelhança com o famoso Trapalhão Zacarias.
No dia seguinte, logo cedo, pegamos o trem para voltarmos a Milão, pois a maioria de nós deveria trabalhar e eu iria para Vizenza encontrar-me com o Big e com o Master Bimba. Como praticamente varamos a noite, não incomodamos ninguém no trem desta vez, pois dormimos durante quase toda a viagem.
Chegando em Milão, peguei o trem para Vicenza, pensando em dormir um pouco mais ou terminar de ler Demian (Hermann Hesse), mas uma insólita senhora não parava de falar, dirigindo a palavra sempre a mim, pois os outros a ignoravam, com a peculiar educação italiana. Ouvi todas suas histórias de amores, pensão, viagens, trabalhos e de vez em quando fazia meus comentários estranhos. Chegando na Estação de Brescia sentaram-se em nossa cabine quatro africanos, justamente no momento em que a senhora falava com certo preconceito sobre estrangeiros, extracomunitários, culturas estranhas á italiana etc. Até o presente momento eu estava quieto, já que ela até então pensava que eu também fosse italiano. Mas com a presença dos africanos, o clima ficou mais pesado e, como eles não diziam nada, alguém tinha que defendê-los, além do fato de que eu não suportava ser visto como conivente com as palavras daquela velha louca. Quem cala, consente. Assim, parecia que eu estava concordando com aqueles absurdos e se não falasse nada, não conseguiria dormir direito aquela noite, com um nó na garganta. Portanto, comecei a argumentar com ela, revelei que sou brasileiro e não deixei passar mais nenhum comentário sem que ela justficasse o porquê deste tipo de pensamento e sem que embasasse seu modo de pensar. Em menos de 10 minutos ela desistiu de falar sobre isso e ficou um pouco quieta. Logo os africanos desceram do trem e desejaram Boa Páscoa a mim e à senhora, com a nítida intenção de mostrar a ela como os estrangeiros são educados mesmo diante de uma situação constrangedora como esta. Eu devolvi os cumprimentos, mas a senhora fingiu que não ouviu e, tentando falar de novo no assunto preconceituoso após a partida dos africanos, foi logo interrompida por mim, de forma um pouco menos educada e reforçando sempre que eu sou tão estrangeiro quanto aqueles africanos, quanto os marroquinos, árabes e turcos. Finalmente ela desistiu de falar.
Chegando em Vicenza, fomos direto para a casa de uns amigos do Big, aonde rolava uma bela feijoada completa! Comi como um porco, mas estava ainda um pouco cansado do dia anterior, com bastante sono. Após a feijoada, fomos para casa, descansei meia horinha e à noite fomos ao boliche com a galerinha do Big. No dia seguinte, acordamos tarde e saímos a busca de um lugar para almoçar. Estava quase tudo fechado e acabamos indo no Crazy Bull, uma espécie de lanchonete\pizzaria\café no estilo americano\italiano\mexicano. Que beleza, não? ! Mas o lugar é de fato legal e bem frequentado, sendo que fizemos contato com o proprietário e talvez role algum trabalho musical durante o verão, mas ainda é cedo para dizer algo sobre isso.
Logo após fomos ao cinema assistir ao filme Inside Man, um interessante thriller norte americano. Findo o filme, demos uma volta por Vicenza e tomamos um sorvete enquanto esperávamos o trem para Milão que estava com um atraso de 120 minutos!! Só bem depois vim a saber que o atraso se deu em função de um suicídio, um maluco que se jogou embaixo de um trem perto de Venezia.
O trem veio lotadíssimo, mas desta vez eu havia reservado lugar! Chegando em meu lugar, deparei-me com uma bela morena sentada, aparentando 28\30 anos de idade, e disse a ela: "Escuta aqui, fofa, não se pode roubar o lugar alheio como se teu fosse e ficar na boa, com essa cara lavada, de moleque troxa que fez besteira. Tira sua bunda celulítica do meu banco, engole o choro e sai andando sem olhar para trás!". Ela estava com uma mala gigante e, no que ela se levantou fui um pouco mais suave e disse que poderíamos fazer um revezamento a cada meia hora. De qualquer forma, após somente dez minutos a morena estava quase desmaiando com o calor que fazia no trem lotado e, vendo que ela realmente estava mal, disse: "Sente-se no meu lugar e eu me sento sobre sua mala brega. Mas se eu perceber que tudo isso é fingimento, saiba que este trem atrasará outros 120 minutos porque outra pessoa será arremessada sob suas rodas de metal, estamos entendidos? ! E engole o choro!". Mas meu bom coração não me permitiu ser tão severo e fui até o vagão-restaurante pegar uma água para ela. Pouco tempo depois ela melhorou e começamos a conversar, ela no banco e eu sobre sua mala, muito gostooousa e confortável. Falamos durante todo o trajeto sobre tudo. Ela trabalha com moda, para a Dolce & Gabanna e viaja sempre ao Veneto porque sua família é de lá. Mostrou-se uma pessoa muito simpática e com um bom papo. O fato monstruoso mas real, só para fechar a Páscoa, é que conversamos por 3 horas e não perguntamos nossos nomes um ao outro. Ao final, perguntei a ela: "Pô, gata, estamos nos falando há horas, a maior energia, o maior entrosamento, super legal, mega bacana, senti algo muito bom vindo de você, mas ainda não sei seu nome. Qual é sua graça, fim do arco-íris? ". Seria melhor ter ficado quieto. Ela respondeu: "Elena. E a sua? ". Fim de Páscoa. Ponto.

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