Batebalengo 2006
Batebalengo é o nome dado a um encontro nacional das escolas de samba da Itália, em função de a organização ter ficado por conta da escola Balengo, sediada em La Spezia (Liguria), local aonde se deu o encontro deste ano.
Escolas de todos os cantos da Itália, num total de 12, encontraram-se durante estes 3 dias para um seminário de percussão, trocas de experiências, contatos e para realizar um grande desfile pela cidade. Assim, não poderíamos faltar a este importante evento com nosso G.R.E.S. Feliz da Vida!
Chegamos, eu, Roby, Andrea Branquinho e sua namorada, Linda, no início da tarde de sexta-feira (08.12), fizemos nosso cadastro, pegamos nossas camisetas do Batebalengo, organizamos os instrumentos na grande sala de ensaios disponibilizada pela prefeitura de La Spezia, conhecemos algumas pessoas e fomos comer algo, antes do início do seminário.
O seminário começou às 12 horas e terminou somente por volta das 20:30 horas, com uma breve pausa para almoço. Importante ressaltar que durante todo o dia tínhamos à nossa disposição vinho e pão, suficientes para os 3 dias. Findo o seminário de sexta-feira, fomos verificar nossas acomodações que neste primeiro dia seriam numa academia de jiu-jitsu sobre o tatame. As escolas de samba foram divididas pela cidade entre escolas, academias e outros diversos tipos de acomodações nada confortáveis, mas funcionais. Uma vez acomodados, fizemos um pequeno "esquenta" e fomos procurar alguma baladinha. Ficamos até as 4 da manhã num bar meio tosco, no meio do nada, ao som de rock dos anos 60, ACDC e Ramones. O DJ não sabia que avia um encontro de escolas de samba e talvez tenha sido até melhor assim, para evitar a overdose de batuque. Claro que ficamos todos bêbados e tivemos conversas bárbaras e vivemos situações surreais. Imaginem que entre todas estas 250 pessoas existiam somente 6 ou 7 brasileiros, sendo dois deles eu e o Cau, único negro em La Spezia, líder do Mitoka Samba, outra escola de Milão, uma das mais antigas. Durante um papo com Cau, enquanto ele me contava sobre sua amizade com Luiz Melodia e Itamar Assumpção, dizia-me repetidamente que eu tinha voz, atitude, presença de palco e pensamento negros e, portanto, eu era irmão, negão e que deveríamos nos unir para dominar o mundo do samba italiano. Eu falei para ele: "Beleza!" e no dia seguinte ele nem lembrava dessa conversa.
Dormimos ao som ritmado de roncos com sotaques de toda Itália, de Nápoli a Trieste, de Bologna a Torino, de Milão a Florença, sendo que no estado de relaxamento em que me encontrava, dormi tranquilo. Mas pelos comentários do pessoal, os organizadores conseguiram colocar todos os roncadores das escolas de samba juntos no nosso dormitório.
Acordamos por volta das 10 horas, fizemos um café-da-manhã e fomos novamente para a sala de ensaio, aonde tocamos das 13 às 19 horas. Tomamos uma ducha e nos reunimos, todas os grupos, na Piazza Verdi, às 21 horas, de onde partiu o grande desfile. Com 12 escolas de samba presentes, fizemos uma bateria com 250 pessoas, o que foi uma experiência incrível para quem está habituado a tocar com 10 ou 15 pessoas. Pelas expressões faciais e pelo espanto dos moradores de La Spezia concluo que conseguimos impressionar e fazer um bom espetáculo, ainda que não tenhamos ficado satisfeitos com o resultado. Essa sensação foi geral entre as escolas de samba, pois a acústica das ruas, becos, avenidas, galerias por onde passávamos mudava constantemente, o que atrapalhava bastante a harmonia geral, ainda mais levando-se em conta a distância entre os primeiros e os últimos ritmistas do bloco. Realmente houve momentos em que o caos sonoro foi generalizado e eu nem sabia o que estava fazendo com o ganzá. Mas felizmente o resultado final foi bom.
Findo o desfile, após 2 horas tocando sem parar (isso depois de ter ensaiado todo o dia), fomos comer alguma coisa e encontrar alguma baladinha tosca para se divertir e fazer amizades fáceis. Paramos em uma espécie de bar-pub-discotequinha com música dos anos 80. Não era tudo, mas era 100%. Curtimos até a polícia nos pedir para ir embora, pois a lei na Itália permite os lugares ficarem abertos até as 2 horas e já eram 4:30 horas! Bárbaro! Fomos para nossa nova acomodação que era uma escola pública aonde, desta vez, os organizadores conseguiram juntar todas as pessoas dotadas do mais poderoso chulé e do mais rigoroso cecê. Bom, eu estava vinicolizado e dormi rapidamente. Mas teve gente que sofreu.
Acordamos por volta das 10 horas com os napolitanos da escola de samba Maracatudo, que são simpaticíssimos, animadissimos e engraçadíssimos, fazendo uma bagunça mágica. Tomamos um café-da-manhã e fomos para a reunião dos diretores das escolas para discutir sobre o evento e sobre a criação de uma confederação das escolas de samba da Itália. Após a reunião fomos almoçar antes de nos concentrarmos em diversas praças da cidade para tocarmos. Cada duas escolas de samba reuniram-se em um canto da cidade e desfilavam até a praça central aonde todas as escolas se encontraram para finalizar o evento. Uma vez reunidas, cada escola se apresentou isoladamente por 5 minutos e, ao final, todos tocamos juntos novamente causando grande euforia em todos presentes.Foi realmente um evento excepcional no qual fiz inúmeras amizades de todos os cantos da Itália, me diverti muito com meus amigos do Feliz da Vida e desenvolvi em mim uma vontade ainda maior de tocar de fazer crescer a escola de samba e todo este movimento brasileiro na Itália que, como falavávamos eu e Cau, está num momento único, sofrendo um fenômeno jamais visto antes. É realmente emocionante e compensador estar no meio de 250 pessoas, na Itália, e pensar que todos eles estão louvando e reverenciando a minha cultura, não por política ou interesse finaceiro, mas por amor ao ritmo e pela alegria brasileira que é única no mundo. Por diversas vezes eu olhava ao meu redor, pensava nisso, me dava conta de que era um dos únicos brasileiros no meio daquelas 250 pessoas, que todos me haviam recebido de braços abertos, e isso realmente me emocionava. E ainda me emociono ao lembrar... Excelente!
